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Um ensaio sobre o tempo


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   O nosso objetivo final nem sempre é a finalização de tudo. As pessoas atualmente costumam colocar o tempo como a base da ocorrência do seu cotidiano, tendo uma espécie de prisão invisível, mas que bloqueia atividades atuais e futuras do dia a dia. Quando temos um controle sobre como e quando agir, e perdemos essa automaticidade e praticidade que é construída, torna a nossa vida exageradamente rápida, o que pode transparecer positivo em alguns casos, mas que provoca certo rompimento no que diz respeito à transitoriedade da vida, o bloqueio do que chamamos de destino e que entendemos que deve seguir com base nas suas vontades próprias.

   Esse mesmo destino é responsável pela divisão da nossa vida e as nossas estruturações futuras. Ao pensar em destino, pensamos no futuro, uma relação mútua entre pensar no que construir e se podemos chegar ao fim dessa construção, ou seja, não depende apenas do tempo, e sim do conjunto entre o quanto ainda nos resta de tempo e os degraus a serem seguidos até o nosso objetivo. Essa facilidade que temos de acelerar a nossa vida, em muitos casos pode ocasionar uma perda da realidade. Estamos tão acostumados ao automático que esquecemos que somos humanos, é aí que o corpo desperta e nos envolve numa pausa forçada fazendo a observação como a saúde, algo simples, ser obrigatória para fazer algo como, por exemplo: viver.

   Contudo, o fato de viver, não é necessariamente viver a vida, passar os dias mesmo que de forma rápida, seria o viver nesse quesito. Podemos observar uma relação entre os objetivos de vida e a satisfação pessoal interna e externa, o tempo nessa questão seria a aceleração da vida para desfrutá-lo de um bem que não está ao seu alcance atualmente, mas através do tempo esses bens podem trazer a “felicidade”, mesmo que momentânea para o indivíduo. O tempo é tratado como impasse entre o estado atual e o objetivo, o corpo necessita daquela situação futura desejada, uma espécie de filosofia epicurista que trás o prazer como objetivo de felicidade, ataraxia, neste sentido o prazer seria o objetivo final, e o desejo seria constituído pelas obras atribuídas à chegada desse objetivo como: a aceleração do tempo e o desgaste físico e emocional.


   A aceleração do tempo por sua vez nos torna um agente hiperativo, que é responsável pela quebra de todo e qualquer ponto que possa bloquear essa aceleração. O medo descrito indiretamente nesse texto seria a estagnação na realidade futura desejada. Ao mesmo tempo em que criamos uma ideia do que seria o nosso futuro e aceleramos esse processo até o objetivo, corremos o risco de chegar, e não saber como prosseguir com o final de tudo o que foi criado. Estamos tão preocupados com o futuro que esquecemos o presente desse futuro, chegamos ao objetivo, e como desenvolver? Como podemos não deixar que isso escorra sob as nossas mãos? São perguntas retóricas que ao mesmo tempo em que são projetadas, sabemos internamente que a resposta exata nunca saberemos explicar. O medo estaria relacionado a uma rotina premeditada anos antes por nós mesmos, e que por alguma razão no exato momento da chegada, não estaríamos totalmente satisfeitos com ela.

   Esse medo vem acompanhado de uma leve impressão de não estar preparado ou de não saber como prosseguir com esse ponto final. Chegamos ao tão sonhado objetivo, o que desejamos tanto a ponto de não entendermos que cada um tem o seu tempo, e o pior, de não entender que temos um tempo para si mesmo e não respeitamos isso.

   Quando o tempo não é respeitado transparece uma ignorância consigo mesmo, um egoísmo colocado adiante das suas relações pessoais, emocionais e mentais, onde o que se pode observar a frente disso tudo é uma verdadeira onda de incompreensão. Em uma entrevista com a revista Veja, após o início do seu tratamento contra uma depressão, o humorista, Whindersson Nunes disse que: “A maioria dos anunciantes interrompeu as campanhas em andamento, não podia esperar o dia em que eu fosse ficar bem. Mas teve empresa que topou ficar comigo”. Isso nos faz ver o tempo ultrapassando o que chamamos de humanismo.

   Ansiedade, depressão e hiperatividade são alguns dos diagnósticos que podemos observar quando se há uma quebra na linha de andamento do nosso destino. O anseio pelo objetivo reflete a sede que temos do mesmo. Ao ser contestado, o ser humano revela no que podemos dizer ser a face da ira, da raiva. Essa parada é o que enxergamos como “pedra no caminho”, que na verdade não passa de um aviso que a própria vida te mostrou para que você entenda que as coisas devem ser no tempo que elas devem ser. É frustrante ser parado no meio do caminho, mas devido à aceleração constante que atrapalha o ato de viver a vida, isso se mostra necessário.

   Mas até o próprio ato de viver requer andamentos para isso.  A nossa vida é desenvolvida por etapas, que muitos de nós quebramos ou saltamos para o período seguinte; a própria vida em si determina o que vai ser realizado para o completo desenvolvimento do ser humano que somos. O processo de aceleração contorna todo o sentido de normalidade do andar da vida, normalidade que se retrata por ser algo com um fluxo próprio, fluxo esse que se revela como o “ideal” para o tempo de qualquer pessoa.

   Ao observar as etapas determinadas por Jung na sua teoria do desenvolvimento da personalidade, nos deparamos com a ideia de uma fase da vida onde suas características são determinadas por grandes mudanças benéficas ocasionadas por um grande sucesso na etapa anterior da mesma. Essa fase chama-se meia-idade.

   O livro Teorias da Personalidade dos autores Duane Schultz e Sydney Ellen Schultz mostra uma relação do tempo com a teoria Junguiana:
Jung perguntou por que, quando obtêm sucesso, tantas pessoas, ao envelhecer, são acometidas pelo desespero e pela sensação de não terem valor? Seus pacientes lhe diziam basicamente a mesma coisa: eles se sentiam vazios. A aventura, a emoção e o prazer haviam desaparecido. A vida tinha perdido o seu significado. (SCHULTZ; SCHULTZ, 2016, p. 100).

   Esse trecho mostra que o objetivo quando é obtido, em muitos casos só depois é que avaliamos a necessidade de ter aquilo naquele momento. Os pacientes questionados por Jung têm suas vidas estagnadas pelo próprio tempo, tempo esse que nós mesmos criamos e que sim nós podemos mudar. 

   A visão que se tem é de incerteza e nesses momentos é que avaliamos se valeu a pena a chegada até ali. O nosso tempo é como um espaço onde a gente deposita tudo o que podemos construir nele, esse mesmo espaço vai se dilatando mais e mais, até um ponto onde a gente possa ter uma vida inteira construída dentro dele. Devemos procurar cada ponto que construímos e atribuir a eles uma utilidade mesmo que rápida utilidade essa que transmite um sentido ás nossas construções. Esse sentido nos fornece uma vontade, um interesse, uma preocupação, pontos que quando somados formam um grau de importância imensa para quem construiu, é nesse ponto que somos capazes de zelar e aproveitar cada construção nossa através do tempo que nos foi concedido.

   A vida tem a sua própria vontade de caminhar, quando ela pede que você acelere seu tempo, ela mesma nos mostra como. Não é preciso tomar as rédeas do nosso próprio destino que nós mesmos estamos construindo, o domínio de como vamos construí-lo é nosso, mas o domínio do tempo que vamos passar para ser concluído é da vida. Acelere se for preciso, a caminhada é mais prazerosa, fortificante e intensa quando se é vivida por inteiro. Por que tanta pressa se a beleza está no percurso? Reduza a velocidade.

Referências

JUNIOR, J, B. Whindersson Nunes fala sobre sua depressão: ‘Me senti enclausurado’VEJA,  ed. 2643. Rio de Janeiro, jul.  2019. Disponível em: https://veja.abril.com.br/entretenimento/whindersson-nunes-fala-pela-primeira-vez-sobre-sua-depressao/. Acesso em:  02  nov.  2019.

SCHULTZ, P, Duane; SCHULTZ, S, Ellen. Teorias da personalidade. Cengage Learning,  São Paulo:, 2016, ed. 10, p. 479.

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Comentários

  1. Isso de tempo é muito doido... Eu sofro constantemente com isso, com ansiedade, medo do futuro...
    É bem complicado, esses tempos estava até lendo o livro "O Poder do Agora" me ajudou muito, mas é complicado colocar sempre em prática, a gente esquece.
    Gostei que você citou Jung no texto, fiquei sabendo dele esse ano porque minha professora sempre comenta sobre ele.
    Muito bom!!

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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    1. É realmente, é um pouco complicado você colocar em prática. Mas isso é bom, as coisas começarem a ser complicadas logo de início te dão um crédito a mais pra fazer com mais vontade, tenta! E Sobre Jung, é um amor ele não é mesmo? Eu adorei conhece-lo (através dos livros claro, hehe)! ♥

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  2. Me identifiquei muito com esse post e concordo totalmente com essa ideia de desaceleração, pausa. O corpo dá sinais mesmo quando estamos desrespeitando nosso próprio tempo e muitas pessoas ignoram até quebrar de vez. Esses pensamentos sobre o tempo me bateram forte bem na fase da meia-idade e seguem comigo. Muito feliz por vc ter aparecido e comentado no meu blog. Adoro esses papos profundos. Beijos!

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    1. Ai e de agora em diante papos profundos é que você vai ver de montão por aqui. Eu necessito deixar esse espaço com toda informação profunda que eu puder, assim mais gente vai poder ver e ter uma vida muito melhor! ♥

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